Um tema que divide opiniões no cenário político, em debates nas escolas e também nas igrejas é a questão do desarmamento civil. Alguns acham que o poder de fogo deve estar concentrado nas mãos do Estado através de suas instituições e agentes para prover segurança à sociedade, ao passo que outros defendem que cada cidadão tenha a liberdade de (se quiser) adquirir armamento e munição sem restrições severas para autodefesa, proteção da família e da propriedade privada.

Vejamos o que encontramos na Bíblia acerca deste assunto. Para isto vamos analisar o uso de armamento em O Antigo Testamento (antes e depois da Lei de Moisés) e em O Novo Testamento com a vinda de Cristo. O escopo desta análise está restrito a uso ou não-uso de armamento por parte da população civil ou o mais próximo disto.

Não tive contato com livros nacionais ou estrangeiros que abordem esta matéria. Portanto, durante a leitura, caso o leitor identifique partes do texto que correspondam a alguma obra já publicada, peço que entre em contato comigo e me notifique para que eu faça as devidas referências aos autores.

ANTIGO TESTAMENTO

Antes da Lei Mosaica

Em Gênesis 13.7-18 temos que Abrão e Ló separaram-se devido a disputas internas entre seus pastores de gado. Ló, sobrinho do patriarca hebreu, escolheu as campinas do Jordão onde ficavam as cidades de Sodoma e Gomorra, e Abrão continuou na terra de Canaã. Algum tempo depois houve guerra de quatro reis contra cinco, episódio no qual Ló, que habitava na jurisdição derrotada no conflito, foi levado cativo e seus bens foram levados como despojo de guerra (Gênesis 14.1-12).

Ao ser informado do que acontecera a seu parente, Abrão formou uma pequena milícia de 318 empregados seus armados e saiu ao resgate de Ló. O pai da fé conseguiu ainda recuperar os bens das cidades que haviam sido derrotadas na batalha contra os quatro reis e trouxe de volta as mulheres e o povo que haviam sido levados cativos (Gênesis 14.13-17).

Ao encontrar o rei de Sodoma no vale de Savé (também conhecido como vale do Rei) Melquisedeque, o sacerdote do Deus Altíssimo e rei de Salém, também foi ao encontro de Abrão depois da vitoriosa batalha. Nesta ocasião o sacerdote de Salém invocou a bênção dO Senhor sobre Abrão e bendisse O Deus Altíssimo, reconhecendo que Ele havia dado a vitória na batalha pelo resgate do sobrinho de Seu servo. Ou seja, para Deus a atitude de Abrão foi digna de Sua aprovação. E não apenas isto, mas temos que o primeiro dízimo registrado na Bíblia advém desta batalha (Gênesis 14.18-20). O dízimo de Abrão para Melquisedeque ainda ecoará em O Novo Testamento em Hebreus 7.

Anos mais tarde, Jacó, neto do patriarca Abraão, após uma longa jornada, retorna à terra de Canaã e fixa suas tendas nos arredores da cidade de Siquém (Gênesis 33.18-20). Porém, para infelicidade dele e de sua família ocorre o triste episódio em que sua filha Diná é violentada pelo filho de Hamor e príncipe daquela terra. Seu nome era Siquém, o mesmo nome daquela cidade. O relato completo e suas consequências encontra-se em Gênesis 34.1-31 e será resumido adiante.

Mesmo tendo cometido uma violência contra Diná, Siquém não a descartou, como é de praxe de certos tipos. Pelo contrário, o príncipe enamorou-se da moça e pediu ajuda de seu pai Hamor para reparar o dano feito e conseguir a permissão de Jacó e sua família para contraírem matrimônio. Porém a notícia do abuso foi recebida com tristeza e muita ira pelos irmãos da moça, que eram 10 (dez) no total. Diante da tensão da ocasião, Hamor fez uma proposta de aliança dos dois povos: casamentos mistos e livre comércio entre os dois povos com o objetivo de se tornarem um povo só. Siquém, por sua vez, deixou que os parentes de Diná majorassem livremente o valor do dote que deveria ser dado pela mão da moça. A atitude de Siquém e seu pai Hamor demonstrou boa-fé na tentativa de pacificar a situação.

Os filhos de Jacó, no entanto, usando de má-fé, aceitaram a oferta sob a condição de que Hamor, Siquém e todos os homens da cidade de Siquém fossem circuncidados. A circuncisão era o ritual hebreu que demonstrava externamente que um homem havia feito uma aliança com Deus, reconhecendo-o como seu único Senhor e Deus. A proposta era na realidade um simulacro de conversão, pois a circuncisão (um ritual espiritual) foi colocada de maneira compulsória e parte integrante de um contrato de mistura de povos através de casamento e livre comércio. Para este cenário bastava Siquém ser circuncidado, pois o assunto era de seu interesse particular.

Apesar disto, a proposta pareceu boa aos olhos dos dois representantes da cidade de Siquém e eles prontamente atenderam às exigências que lhes foram impostas. O que os príncipes e os outros homens da cidade não sabiam é que o procedimento ritual faria com que eles passassem por um período de convalescênça. Simeão e Levi, dois dos filhos de Jacó, empreenderam um violento e covarde ataque à cidade. Eles mataram a fio de espada todos os homens da cidade, incluindo Siquém e seu pai Hamor, e trouxeram sua irmã Diná de volta para casa. Os outros irmãos saquearam a cidade roubando gado e outras riquezas. Também levaram como despojo crianças e mulheres. Este ardiloso assassinato em massa foi reprovado por Jacó, o pai dos 10 irmãos, logo após o ocorrido e no seu leito de morte ele profere uma maldição em nome de Deus sobre Simeão e Levi, os principais responsáveis por este morticínio (Gênesis 49.5-7).

Nestes dois relatos do livro de Gênesis vemos o contraste do uso da espada por civis:

  1. Abrão: Usando a espada para defender a vida e a propriedade de seus familiares e sendo aprovado por Deus por isto. O primeiro dízimo registrado surge desta situação; e
  2. Simeão e Levi: Premeditaram, de maneira covarde, o assassinato dos homens da cidade de Siquém. Da parte dos dois houve dolo em descumprir o contrato outrora acordado. A situação já havia sido pacificada mediante atitude de boa-fé do ofensor em tentar reparar o dano causado. A retaliação foi desproporcional ao dano sofrido. Os dois foram amaldiçoados por Deus por isto.

O primeiro livro da Bíblia traz um protótipo daquilo que hoje é defendido por vários grupos contrários ao desarmamento civil como justificativa para aquisição de armas: defesa da vida e da propriedade privada. Nas próximas oportunidades estudaremos o que os outros livros da Bíblia ensinam sobre este tema.

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